Conde na TVT: Brasil em observação, com Maria Augusta Ramos e Carlos Alberto Mattos

Maria Augusta Ramos, a Guta, é cineasta. Ao longo da trajetória como roteirista e diretora, desenvolveu uma linguagem própria na produção de documentários. Ao estabelecer distância formal em relação à situação que filma, desafia elementos que caracterizariam o cinema documental, como a não encenação.

Forma-se em musicologia pela Universidade de Brasília e, aos 22 anos, muda-se para a Europa, onde faz mestrado em música eletroacústica. Especializa-se em psicologia da música e, em 1990, transfere-se para Amsterdã, para estudar direção e edição na Academia Holandesa de Cinema e Televisão. Brasília, um Dia em Fevereiro (1996), seu primeiro longa-metragem, marca a graduação em direção e edição. No filme, já explora o trabalho com som direto, captado com as imagens, sem acrescentar informações ou trilha sonora alheias à ação. Os personagens – uma estudante, uma esposa de diplomata e um vendedor ambulante – são acompanhados mais no contexto social que os envolve do que em sua vida pessoal.

Além do som direto, os documentários da diretora se notabilizam pela ausência de entrevistas, de comentários para a câmera ou de interação dos personagens com a equipe de filmagem. Esses procedimentos promovem o distanciamento formal do que está sendo mostrado, recurso que o teórico sueco Bill Nichols (1942) chama de “observativa”. Em muitas cenas de seus principais filmes, a câmera se posiciona com firmeza, mas por vezes causa estranhamento que a filmagem tenha sido autorizada, tamanha a naturalidade dos personagens, quase sempre não atores.

Maria Augusta questiona o nível de encenação de não atores em uma situação real, mas filmada, e de atores que compartilham o contexto social dos personagens que representam para a câmera. Filma ambientes da esfera institucional ou pública sem intervir em seu funcionamento cotidiano e sem se dirigir ao espectador. Dessa forma, naturaliza a presença da câmera e exibe as relações sociais em sua concretude: os personagens são muito mais atores sociais, retratados na relação uns com os outros, do que indivíduos, dos quais o filme aproxima o espectador por meio de narração em off, entrevistas ou outros recursos que não interfiram nas imagens e sons captados diretamente.

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Ao retratar o Morro dos Prazeres (2013), no bairro carioca de Santa Teresa, a cineasta mais uma vez apresenta a relação entre Estado e sociedade civil, agora por meio da instalação de uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), com a expulsão do tráfico de drogas e a convivência entre moradores e policiais.

O Processo (2017), que narra o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff, ganha prêmios de melhor filme nos festivais Visions du Réel (Suíça), Documenta Madrid (Espanha), Festival de Cinema de Lisboa (Portugal) e Festival de Documentários de Buenos Aires (Argentina), além do Prêmio Especial do Júri no Festival de Havana (Cuba).

Em 2014, recebe o Prêmio Marek Nowicki, da Helsinki Foundation of Human Rights, pela sua obra. Retrospectivas de sua filmografia são realizadas em Montreal (Canadá), Praga (República Checa), Rio de Janeiro, Mar del Plata (Argentina) e Madrid (Espanha).

A cineasta acaba de ser homenageada em uma retrospectiva na Cinemateca de Toulouse, na França.

A mostra aconteceu de 9 a 18 de junho, e contou com uma master class e 6 filmes da realizadora, incluindo “O Processo”, “Justiça”e “Não toque em meu companheiro”.

Além da mostra, Guta foi entrevistada da atual edição da Cahiers du Cinéma, uma das mais influentes publicações da crítica cinematográfica no mundo.

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